Testemunhos – 1

Só quando um dia atravessamos a frágil ponte que separa os ouvintes dos surdos é que percebemos verdadeiramente o que significa não ouvir bem ou não ouvir mesmo nada e todas as implicações que esta nova condição do nosso eu arrasta consigo.

Por muito que estudemos e que contactemos com pessoas com perda auditiva , independentemente do seu grau e do seu tipo, da idade, do seu modo de comunicação, da sua adesão e sentido de pertença a uma comunidade ou da sua «identidade flutuante» (Skliar), só por dentro do mundo sem sons ou com menos sons, ou com sons diferentes dos que conhecíamos é que percebemos o que é isso de ser surdo, o que perdemos e o que ganhamos por contraponto com o que tínhamos.

Não se trata aqui de pôr em questão as convicções de ninguém nem de entrar em polémicas estéreis sobre o ser surdo/Surdo/ouvinte/deficiente auditivo, que apenas isolam em grupos minoritários um grande número de cidadãos com dificuldades auditivas que poderiam abraçar uma mesma causa com muito mais peso – a união faz a força, diz o ditado…

Trata-se hoje, aqui e sempre que possível, de dar a voz e a escrita a quem vive num mundo onde os sons não são tomados por garantidos, onde a surdez existe, em maior ou menor grau, e de «ouver» diferentes experiências de vida.

A tarefa de desbravar o caminho deste dar-se aos outros cabe a Alicani, que respondeu generosamente e de forma rápida ao meu pedido de dar o seu testemunho pessoal. A ela, que tem sabido percorrer aquele que acredita ser o seu caminho com força e coragem, sempre dando a mão aos outros companheiros de viagem, incentivando-os, servindo de elo de ligação entre eles, informando e formando sem criticar, apenas acolhendo com carinho e entusiasmo outros diferentes de si, mas iguais na relação mais difícil com os sons, o meu obrigada!!

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Parte 1

Ensurdecer

Um momento ouvir e no dia seguinte não ouvir, com apenas 18 meses de idade o meu mundo infantil desmoronou e agora? Que me aconteceu? Onde estão os sons que outrora banhavam em mim, não consigo escutar e quando mais grito eles não chegam aos meus ouvidos cujas primeiras palavras precisas começara a emergir.

Silêncio. Agora o silêncio habita em mim, mas mesmo assim continuo a saga dos gritos, dos choros aflitivos e de falar alto. Mexo muito nas orelhas, ponho os dedos dentro dos ouvidos, a minha mãe, o meu pai acham estranho este comportamento invulgar, não sou assim.

Os dias passam, mas não dão muita importância julgando ser apenas uma fase, não sabem que alguma coisa mudou drasticamente e o silêncio perdurara nas teias do desconhecido de uma bebé onde a audição estava prestes a ser perdida para sempre.

Já incapaz de reagir às vozes, deixei de virar o rosto aos sons e só sentia o chão a vibrar de uma porta batendo, os sustos multiplicavam a cada instante e na exacta medida o domínio da linguagem abrandara instantaneamente, passando a comunicar bastante através de gestos naturais e instintivos.

Os meus pais por insistência marcaram uma consulta de Otorrino em Alhos Vedros, para confirmar o diagnóstico duvidoso. Apitos altos e baixos. Saiu o resultado, Surdez Severa Bilateralmente com 60 decibéis no esquerdo e 75 decibéis no direito, onde três meses depois perdi progressivamente mais de 30% confirmado uma Surdez Profunda acentuada nos dois ouvidos. O universo caiu acima dos ombros, não queriam acreditar.           

Fui logo aparelhada pelo médico dos olhos azuis, não rejeitei de certa forma as próteses auditivas, pelo contrário foram logo aceites por mim mesma, o mundo dos sons que tanto pertenceu no meu âmago regressou. Após a colocação das próteses, intensificaram a terapia de fala devido aos resíduos auditivos bem patentes, e o desenvolvimento da linguagem expandira de forma surpreendente, seguindo frases de mais 4 palavras assim sucessivamente baseado no trabalho fantástico da minha mãe.  

Escola de Surdos? Escola do Ensino Regular? Qual vou? Não me querem limitar o conhecimento, a interacção social, o bloqueio da Língua Portuguesa e todo o temor terá de ser rapidamente ultrapassado. Está decidido. Vou para o Ensino Regular, não há outra alternativa e é o melhor para mim. De malas às costas, pesada pois lá dentro estão os livros que no decorrer da aprendizagem foram os meus melhores amigos, o bálsamo, a força, e a sede de palavras que pouco a pouco moldou a criança que seria daqui uns anos. Não reprovei, não repeti a classe, passei de seguida e de rajada.

 

Alicani

~ por imisal - PORTUGAL em 17/06/2009.

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