Identidade Pessoal e Social dos Deficientes Auditivos (Ensurdecidos)

Apresento, abaixo, um resumo do artigo «Personal and Social Identity of Hard of Hearing People» (comunicação apresentada no Congresso da International Federation of Hard of Hearing People em Graz, Áustria), de   Mark Ross, sem emitir a minha opinião pessoal sobre as questões abordadas.

 

OBJECTIVO DO ARTIGO: analisar a identidade pessoal e social das pessoas com dificuldades auditivas («hard of hearing»).

 

 CONCLUSÕES/CONCEITOS/ IDEIAS APRESENTADAS:

1-Distinção de 3 grupos com problemas de audição:

  •  os surdos fisiológicos (sem ou com poucos resíduos auditivos);

 

  • os Surdos (possuem idênticas referências sociais e culturais, independentemente dos seus resíduos auditivos e são um grupo bastante coeso), grupo muito heterogéneo devido a múltiplos factores: idade da aquisição da surdez, tipo de escola frequentada e a modalidade de comunicação preferida. Há uma identidade pessoal e social Surda: a maior parte dos surdos pré-linguísticos constitui-se em sub-grupos organizados segundo crenças religiosas, etnias e interesses comuns, tal como na sociedade ouvinte, mas aqui o factor comum é a surdez.

 

  • as pessoas com dificuldades de audição: grupo heterogéneo, sendo considerada «phisiologically hard of hearing» a pessoa que desenvolveu as competências linguísticas inicialmente através da audição e que percebe mensagens verbais através da audição. Segundo o autor, não está em causa uma «surdez menor» que a dos surdos/Surdos, mas uma deficiência distinta, nem sempre assumida por governantes e educadores por questão de maior facilidade na adopção de medidas uniformes.  

2. A  deficiência auditiva é muito comum (nos EUA cerca de 1 em 10 pessoas tem dificuldades de audição que interferem na comunicação – 24 milhões) o que contribui para a falta de atenção que é dada a esta condição.  

3.A dificuldade em ouvir, a deficiência auditiva é invisível e, por isso, pouco percebida pela  maior parte das pessoas («an invisible condition», segundo STONE,1993)

O conceito de surdez total (= ausência de resposta a estímulo sonoro) é mais claro para a maior parte das pessoas que uma perda auditiva parcial e muitas vezes tardia (envelhecimento – presbiacúsia), em que pode haver ou não reacção ao som dependendo de diversos factores; o facto de a fala e da competência linguística do sujeito nem sempre serem afectadas também dificulta o reconhecimento da deficiência por parte dos outros.  

4.A perda de audição, por si só, não pressupõe a construção de uma identidade pessoal e social específica. O impacto da surdez no sujeito tem a ver com as experiências de vida, com a idade da perda auditiva (infância versus idade adulta) e também com o auto-conceito.

Daí a importância dos programas educacionais e terapêuticos aplicados a crianças com dificuldades auditivas, que podem condicionar as suas preferências identitárias:

  • «treatment caused deafness» («iatrogenic children»): expressão utilizada pelo autor relativamente a crianças cujos resíduos auditivos não foram aproveitados, tendo adoptado a identidade Surda. 
  •  crianças com dificuldades auditivas que frequentam o ensino regular («forgotten children», DAVIS,1990): por vezes, devido ao isolamento que sentem relativamente aos pares, têm problemas a nível da identidade pessoal e social, sentindo-se surdos sem o ser. Por vezes estas crianças acabam por aderir à comunidade surda. Na opinião do autor, podem ser uma ponte entre os Surdos e os Ouvintes.  

5.Vantagens da inclusão de crianças com dificuldades de audição no ensino regular: os seus resíduos auditivos são aproveitados ao máximo, usufruem de apoios educativos específicos, há uma melhoria da sua auto-estima, uma vez que são reforçadas as áreas em que têm melhor desempenho, o desenvolvimento da auto-aceitação, o que promove a aceitação pelos seus pares e educação para a diversidade dos ouvintes. 

Estas crianças revelam melhor desempenho na fala, na linguagem e em testes académicos que as crianças surdas (embora com lacunas nessas áreas por comparação com crianças ouvintes), o que lhes permitirá uma mais fácil integração na sociedade na idade adulta e um maior leque de escolhas a nível profissional.  

6.Importância da existência de associações de pessoas com dificuldades auditivas:

  • na adolescência: para além das questões habituais relativas à identidade pessoal e social, como nos jovens ouvintes, coloca-se também a questão da identidade no que respeita à audição. Daí a importância do contacto com outras pessoas com problemas idênticos: as associações de jovens com problemas auditivos poderão ser fulcrais no apoio à passagem à idade adulta e na constituição destes jovens como cidadãos de pleno direito. 

  • nos adultos que têm perda   auditiva não se colocam as questões de identidade, sendo a perda auditiva um obstáculo à participação plena na sociedade e não uma condição que os defina. Uma associação é o meio mais eficaz para minimizar ou mesmo destruir esses obstáculos, permitindo-lhes retomar a identidade que possuíam anteriormente à perda, constituindo um grupo representativo dos direitos destes cidadãos e um grupo de pressão junto das entidades governamentais; esta última característica permitirá que as associações continuem a existir, mesmo depois dos associados ultrapassarem a fase inicial da perda de audição.  

7.Reacções mais comuns à perda gradual de audição decorrente do envelhecimento:

  • não aceitação/negação;
  • isolamento; desespero, porque a par da perda auditiva surgem frequentemente outros problemas de saúde;
  •  atribuição causal aos outros da dificuldade em perceber o que dizem.  

Os outros vêem os efeitos da perda auditiva, nem sempre lhes atribuindo a causa correcta.

 

FRASES-CHAVE:

  •  «I don’t think that a “hard of hearing” identity exists.» 
  • «Unlike Deaf people, we don’t view our hearing loss as the defining condition for our identity, nor feel any sense of pride in the fact that we have difficulty hearing.»  

 

 (IN:http://www.hearingresearch.org/Dr.Ross/personal_and_social_identity_of_.htm  Rehabilitation Engineering Research Center on Hearing Enhacement, da Gallaudet University; 1ª versão publicada no International Federation of Hard of Hearing People Journal, em 1996. ).

~ por imisal - PORTUGAL em 03/06/2009.

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