Aprender a viver com o Síndrome de Cogan – 1

Não é fácil começar, porque ainda não sei bem como é viver com esta doença, ainda não consigo distanciar-me o suficiente para me observar a viver com surdez, tal como as recordações que possuo da vida sem o Síndrome de Cogan começam a esfumar-se, como se aquela vida que vivi fosse de outra pessoa e eu tivesse assistido a ela, de perto, mas sem nela participar.

Acordamos um dia e já não somos quem éramos no dia anterior, literalmente,ainda que só descubramos isso mais tarde, muito tempo depois, quando a perda da sudez já se instalou há tempo suficiente para percebermos que daí em diante não voltaremos a ouvir como dantes nem a ter a vida que tínhamos… E talvez seja nesse momento em que aceitamos que nada será como dantes que tudo começa realmente; o percebermos que talvez tenhamos de usar uma prótese ou duas para ouvirmos melhor, o desejarmos intensamente que esse dia chegue para podermos recuperar alguns sons, algumas conversas, para nos sentirmos um pouco nós, outra vez!

E o caminho vai continuando até à altura em que descobrimos que não queremos saber o porquê da doença, que só queremos que chegue um dia com um pouco de paz, um dia em que poderemos sentir talvez um pouquinho de felicidade por continuarmos vivos… E depois o instante em que só desejamos não piorar, não deixar de ouvir as vozes dos que amamos e dos outros, daqueles que encontramos nas ruas, nos cafés, no cinema, no supermercado, no trabalho… E a esperança de que voltaremos a conseguir andar como dantes, ou de maneira parecida, sem cambalear, sem parecer «o velho marinheiro» contagiado pelo vaivém das ondas… E o projecto de tentarmos correr outra vez, num dia talvez ainda muito distante, mas o tempo parece não importar, desde que exista a crença de que havemos de lá chegar…

E os dias fazem-se meses, cada um quase igual ao outro, na construção de novas rotinas, no obrigarmo-nos a sair da cama, a tomarmos o duche, a vestirmo-nos e a darmos um pouco de cor à cara, para esconder as borbulhas e outros efeitos secundários da cortisona, a sairmos à rua para treinar a marcha, para beber um descafeinado, para andar e sentir na pele a brisa e o ar morno daqueles meses de Primavera em que quase não choveu… por fora é claro, ainda que por dentro também a certa altura tenha deixado de chover, nessa mesma altura em que percebi que o caminho era continuar a andar e a saber esperar o dia em que o pior passaria…

E acordar a tentar perceber se se ouve alguma coisa, o quê e como, se distorcemos ou não os sons, se percebemos o que nos dizem sem que tenham de o repetir muitas vezes…se naquele dia conseguimos ou não distinguir o som irritante da luz da cozinha que durante tantos anos nos moeu a paciência e que agora, sempre que surge nos nossos ouvidos e no nosso cérebro, anuncia um dia bom! Sim, porque começam a ficar para trás os dias em que acordamos quase sem ouvir, passada meia hora já ouvimos melhor, um pouco mais tarde e quase percebemos as frases completas, para algumas horas, poucas horas depois, recomeçarem os zumbidos nos ouvidos, o martelar, as campainhas, os apitos e as vozes dos outros cada vez mais longe! E já conseguimos saber que temos de olhar para as bocas e não deixar que fale mais do que uma pessoa de cada vez e que, com cuidado, com muita atenção e com sorte na pontaria, até percebemos o que querem dizer-nos.

Ainda não é tempo de ouvirmos e entendermos os diálogos dos outros, aliás esse tempo dificilmente chegará para todos os «Coganitos», apenas para aqueles que tiverem mais sorte ou, como diz um de nós, para aqueles que tiverem menos azar! E, no entanto, parece que aos pouquinhos o sol vai recomeçando a brilhar também cá dentro!

~ por imisal - PORTUGAL em 24/05/2009.

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