Surdez infantil e comportamento parental

Apresento hoje os tópicos essenciais de um artigo científico, “Surdez infantil e comportamento parental”, da autoria de  A. F. Rodrigues e António Pires, de  2002, publicado na revista  Análise Psicológica ( jul. 2002, vol.20, no.3, p.389-400. ISSN 0870-8231).

OBJECTIVO: «construir uma teoria sobre o comportamento parental de pais de crianças surdas», para tentar alargar o reduzido conhecimento do comportamento parental de crianças em situação de risco, nomeadamente com surdez.

METODOLOGIA: entrevistas semi-estruturadas a quatro mães e dois pais de 8 crianças surdas pré-linguísticas, com idades entre os 2 e os 13 anos, analisadas pelo método da Grounded Theory*. O local de recolha de dados foi a sala de Consulta de Grupo de Surdez Infantil do Serviço de O.R.L. do Hospital de Santa Maria. No âmbito desta teoria foram realizados os protocolos das entrevistas e a respectiva análise qualitativa de conteúdo, que permitiu a elaboração do modelo teórico esquemático apresentado, a partir da identificação das categorias principais.

 

RESULTADOS:

1-A preocupação com a comunicação (pais/filhos; filhos/pais; filhos/terceiros; terceiros/filhos) surge como o aspecto mais relevante do comportamento parental, norteando a acção dos pais para a diminuição da surdez e resolução das dificuldades de comunicação através de diversas formas:

 i) opção por processos comunicativos que vão aproximar a criança surda do conceito de “normalidade”, sendo esta entendida como a condição de ouvinte: uso de próteses auditivas (hipótese mais frequente e primeira opção a ser tomada), o implante coclear (apenas 1 caso, sendo de considerar o aspecto financeiro como condicionante desta opção), a aprendizagem da língua gestual (por pais e filhos) e a aprendizagem da fala; 

ii) sobrevalorização das competências visuais, cognitivas e sociais dos filhos, salientando todas as acções e aprendizagens que eles realizam de modo igual às crianças ouvintes;

iii) comparação com os pais de crianças com deficiências/problemas de saúde considerados por eles como de maior gravidade que a surdez, com maior visibilidade, exigindo um maior acompanhamento dos pais e implicando uma menor autonomia por parte da criança. 

2- Investimento dos pais em todo o percurso: a procura de apoios, a aprendizagem de língua gestual, o abandono da profissão para apoio exclusivo à criança ou a procura de um emprego financeiramente superior para responder às necessidades sentidas, a sobre-estimulação precoce. 

3- O investimento parental é variável e diferente no pai e na mãe, estando intimamente relacionado com o grau de aceitação da surdez das crianças e com os resultados obtidos relativamente à tentativa de diminuição da surdez e das dificuldades comunicativas. Referem-se também as implicações dessa desigualdade de investimento entre os dois cônjuges e o modo como se evidenciam, na percepção que cada um tem do apoio do outro e na maior ou menor proximidade e frequência de interacção com a criança. 

4- Uma maior ou menor aceitação da surdez pelos pais condiciona ainda a sua disponibilidade para agir na minimização da surdez e das dificuldades comunicativas, se bem que a primeira reacção ao diagnóstico seja frequentemente a de rejeição, acompanhada de sentimentos de culpa. Nos casos em que a surdez é aceite, esta aceitação ocorreu de forma progressiva, coincidindo com os casos em que os pais também aprenderam língua gestual, que consideram a língua materna do seu filho.  

5- A preocupação acerca do futuro da criança surda, tanto a nível académico como a nível profissional, sendo as expectativas de sucesso reduzidas relativamente às duas situações. Em alguns casos, esta preocupação foi reduzida pelo contacto com adultos surdos bem integrados na comunidade ouvinte.

6- O apoio prestado pelo cônjuge e pela família – na maior parte dos casos pela avó materna – foi considerado importante para atingir o objectivo principal destes pais, embora muitos revelem não sentir o apoio do parceiro. O apoio de outros pais com filhos surdos constitui também um recurso fundamental.

7- A percepção do apoio dos profissionais (médicos e outros técnicos) é variável: alguns pais valorizam as informações e apoio prestados, enquanto outros afirmam que não lhes foi prestado apoio ou que este não foi eficaz. Esta insatisfação surge, sobretudo, na fase do diagnóstico, relacionada com a rejeição e procura de outros profissionais que emitam um diagnóstico diferente. Relativamente ao nascimento de um segundo filho surdo (2 casos) a percepção do apoio prestado por médicos foi contraditória; aí, o que parece ter sido igual é a maior capacidade em lidar com a surdez do segundo filho e em agir mais rapidamente na procura de soluções.

 
CONCLUSÕES:

 1.Resultados semelhantes a outros estudos de outros autores: a preocupação central dos pais entrevistados é tentar diminuir as consequências da surdez na comunicação, através de diversas formas – aparelhamento auditivo para o melhor aproveitamento possível dos resíduos auditivos, aprendizagem do Português Oral pela criança e da Língua Gestual por ela e pelos pais/cuidadores. Esta preocupação de minimização da surdez assume maior ou menor dimensão consoante o grau de aceitação da surdez, o apoio directo de familiares e de outras pessoas, e a ansiedade relativa à vida futura em sociedade. Etapas no comportamento parental desde a suspeição da surdez: a ansiedade, a negação, o reconhecimento e a acção.

 2-Aspectos inovadores: o apoio recebido por parte de adultos surdos e a consequente diminuição da preocupação com o futuro, o enfoque nas competências dos filhos iguais às das crianças ouvintes e a estratégia de comparar a surdez com deficiências consideradas mais graves; é ainda salientado que, contrariamente ao que tem sido referido por outros autores, as crianças deste estudo não podem ser caracterizadas como introvertidas ou pouco sociáveis.

3-Questões a investigar futuramente: a relação entre sentimentos de culpa por parte das mães e uma menor aceitação da surdez; os motivos que levam a que um dos pais/cônjuges tenha um menor grau de envolvimento; a aceitação de uma segunda surdez e a relação com o papel eventualmente mais activo do pai; a relação entre a colocação de implante coclear e o grau de aceitação da surdez.

 

* a Grounded Theory, proposta por Glaser e Strauss (1967) é um modelo de investigação que pressupõe o papel activo do investigador e a fundamentação da teoria na realidade investigada. Esta teoria qualitativa atribui uma importância fundamental aos contextos e interacções sociais, às percepções que cada indivíduo tem da realidade, aos seus valores e princípios e, obviamente, à subjectividade inerente a esses factores. 

~ por imisal - PORTUGAL em 18/05/2009.

2 Respostas to “Surdez infantil e comportamento parental”

  1. Obrigada pelas tuas palavras e, claro, pela tua visita!
    Misal

  2. uena! Querida nem imaginas o quanto estou a devorar estes teus textos, lindo a abordagem de divulgação! Maravilhoso.
    🙂

    Beijinhos de coração.

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