“Ouvências”…

Ouvência 1

Numa loja de roupa…dou uma volta, observo várias peças, vejo uma t-shirt apetecível, procuro o meu tamanho (XL, «cortisona oblige»), dirijo-me à caixa. Na cabeça, arrumadinhas, as possíveis frases que a empregada me dirá (É para oferta? Quer levar talão para trocar se não estiver bem? Tem cartão de cliente? Vai pagar com dinheiro ou com cartão? Deseja mais alguma coisa?) – vários temas e respectivas variações em compartimentos separados, para rapidamente dar a resposta correcta e sem ter de pedir para repetir. A senhora pega na peça, faz uma ou outra pergunta, dentro das expectativas, pago, recolho o saco e vou a sair quando me apercebo que a funcionária disse qualquer coisa, quando já não olhava para ela. Rapidamente percorro o catálogo de perguntas e respostas, tentando descobrir qual das frases corresponde ao que terá dito; confusa, olho para ela, sorrio, digo «Pode repetir por favor? É que eu oiço mal…» e espero… E oiço um sonoro «Boa tarde!»… Uma questão de educação!!!

 

Ouvência 2

Ida ao hospital… Levantar cedo, muito mais cedo que o habitual, guiar até à estação, apanhar o combóio bem cedo, chegar à estação de destino, táxi até ao hospital, corrida para reabastecimento alimentar num dos cafés , WC, compra de uma revista(a experiência ensinou-me há muito que tudo isto é imprescindível para a sobrevivência em «zona de guerra»!) e, finalmente, dirijo-me ao serviço pretendido. Depois de algum tempo, bastante tempo, na fila de espera, por entre doentes vários e familiares e amigos dos mesmos, apoiando-me ora num pé, ora no outro, tentando distribuir o peso por forma a não perder o equilíbrio, já de si precário por ter dormido pouco, tento abstrair-me do ruído das vozes, dos choros de crianças, do quadro que vai chamando os doentes… Finalmente, chego ao balcão e faço a pergunta que pretendia. A funcionária responde-me, de cabeça baixa, impossibilitando a leitura labial e a captação de qualquer informação não verbal. Delicadamente, peço «Não se importa de olhar para mim quando fala? É que eu…» e não tenho tempo de acabar a frase, porque caio fulminada pelo olhar da funcionária, que pensa que estou a apontar-lhe falta de educação. E mesmo depois do equívoco desfeito, continua de ar zangado e cara fechada. Novamente, uma questão de educação!!!

 

Ouvência 3

A máquina de lavar sucumbe à idade e vejo-me forçada a ir a uma oficina, tentar arranjar uma solução, porque até está sol, depois de muitos dias de chuva ininterrupta e de quilos de roupa suja a acumularem-se, quase a transbordarem dos cestos respectivos. Atende-me um senhor de idade que possivelmente teve uma paralisia facial, pelo que pouco mexe os lábios, para além de ter uma dicção complicada para mim. Ouve-se um rádio ao fundo, lá muito na fraca luminosidade do barracão, e uma música qualquer que nem tento adivinhar qual é, tal o esforço que emprego a tentar concentrar-me na cara do senhor para perceber o que ele diz, enquanto reprimo um ataque de riso ao lembrar-me das palavras do mágico de circo para a sua acompanhante -«Concentra-te, Mirita!»… Explico ao que vou e ele responde, mas não percebo uma palavra, até porque entre nós está um guichet,a seguir a este uma secretária e só depois o senhor, com um cemitério de máquinas de lavar e frigoríficos por trás dele, a compor o cenário… Digo «Desculpe, não percebi. Pode repetir?»… E ele, amavelmente responde e eu, por entre o discurso todo entendo uma ou outra palavra, mas não as suficientes para captar a informação que me dá…Tento fazer o sorriso mais simpático do mundo e repito o pedido, acrescentando «Sabe, é que não oiço muito bem…». O senhor sai do cubículo, vem ter comigo e repete o que disse…e continua «Ai, eu também oiço muito mal, até devia comprar umas próteses, e o meu neto até já me disse…» e continua a alta velocidade, impiedosamente, conta-me os seus problemas de audição, e como é com a televisão, e a mulher e a sogra que se queixam e ele assim, e assado… Já fiquei no fim da 2ª ou 3ª frase, mas vou sorrindo, na esperança de que não tenha muitas mais maleitas. Enganei-me, a descrição continua, enquanto procura umas peças. Pergunta-me algo, e quanto começo a responder-lhe, já me virou as costas e  lá vai outra vez para detrás da mesa… Volta-se e pega nas minhas palavras, que tinha ouvido perfeitamente, de costas, a uns quantos metros de mim, para recomeçar «É que oiço mesmo mal, a menina sabe lá!!!». Desta vez, uma questão de …distracção?

~ por imisal - PORTUGAL em 17/05/2009.

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s

 
%d bloggers like this: