Consequências da surdez adquirida na idade adulta

No âmbito da realização da minha dissertação de mestrado, na área da Surdez, e ainda por iniciativa própria, agora que também eu faço parte do mundo dos que ouvem mal, li recentemente um artigo, cujo resumo apresentarei de seguida e que me parece abordar algumas questões pertinentes no que respeita à surdez adquirida na idade adulta, ao impacto que provoca na vida do adulto e dos seus próximos e aos diferentes modos como as pessoas lidam com ela:

ROBDERTSON,M. (Maio 2004). “CONSEQUENCES OF DEAFNESS FOR LATE DEAFENED ADULTS”, in Deafness Forum of Australia, National Deafness Sector Summit 15-16 May, 2004 Consultado no http://www.deafnessforum.org.au/   em 14/1/2009.

De acordo com a informação da página de entrada, o Deafness Forum é a maior associação da Austrália na área da surdez e foi criada em 1993. Representa os interesses das comunidades Surda e de deficientes auditivos, incluindo pessoas com doenças crónicas do ouvido e surdocegos.

Este artigo tem por objectivo apresentar as consequências da surdez/perda auditiva em adultos (“late-deafned”) que continuam a viver na comunidade ouvinte e que na comunicação com os outros se servem dos resíduos auditivos, da visão e de ajudas técnicas (próteses ou implantes cocleares), salientando a autora que algumas das conclusões apresentadas se poderão aplicar a todos os Surdos.

A experiência negativa da perda (total ou parcial) da audição acontece tanto nos casos de perda súbita como progressiva, podendo estar aliada não só à perda sensorial, mas também a todas as perdas subsequentes a ela, por exemplo: a nível profissional, a nível das interacções com outros (familiares, amigos, colegas de trabalho), a nível de actividades em que o ex-ouvinte encontrava prazer anteriormente e que são abandonadas.

A fase da vida em que ocorre a perda auditiva determina o impacto das perdas que têm de ser enfrentadas. Segundo os dados existentes, as perdas pós-linguísticas ocorrem sobretudo nos idosos.

Todas as pessoas que sofrem uma perda auditiva se adaptam a ela, mas de formas diferentes: enquanto algumas se isolam, desistindo de actividades que lhes davam prazer anteriormente e que já não conseguem realizar, outras conformam-se com a mudança ocorrida e outras ainda reconstroem a sua vida de um modo que lhes é satisfatório.

O modo de lidar com a perda auditiva tem a ver com o acesso a recursos de diversa ordem: pessoais (a auto-estima, a resiliência e a persistência na procura de ajuda e aconselhamento); sociais (estatuto e recursos económicos); acesso a aconselhamento e à tecnologia; rede de apoio a nível da família e dos amigos; ausência de discriminação relativamente à deficiência adquirida; tomada de medidas facilitadoras da comunicação com os mais próximos , mas também a nível comunitário.

A autora apresenta, depois, algumas citações sobre a perda auditiva que enfatizam os seguintes aspectos: a invisibilidade da perda auditiva que remete o ex-ouvinte para uma “Terra-de-Ninguém” (“limbo”), já que não pertence à comunidade Surda mas também já não se sente completamente integrado na comunidade ouvinte; a tentativa de esconder a surdez, muitas vezes sem sucesso e originando situações embaraçosas para o próprio; a solidão e o desespero de quem passa a ouvir mal; o medo de que os outros descubram a deficiência.

Seguidamente o artigo apresenta as diversas consequências de uma perda auditiva (parcial ou total) para um adulto, até essa altura ouvinte, organizando-as em diferentes áreas:

1.Consequências na auto-estima e na identidade: depressão, solidão, medo de que os outros os considerem inferiores.

Hetu (1996), refere o  desejo de evitar uma “identidade estigmatizada”, o que leva a que muitos não assumam a perda de audição e não procurem formas de reduzir o impacto negativo da perda auditiva na comunicação. Deste modo, correm o risco de o seu comportamento ser considerado inadequado, anormal (Orleans, 1987), sendo que a incompetência social parece ser menos negativa para estas pessoas que a deficiência auditiva. Paradoxalmente, os esforços dos deficientes auditivos para dissimular a surdez acabam por aumentar o estigma relativamente à surdez.

Esta atitude tem alguma razão de ser, se observarmos com atenção o que se passa a nível social: a surdez foi durante muito tempo associada à ignorância, à inadequação social, à velhice (esta também com um estatuto de inferioridade) e continua a ser alvo de anedotas. Por outro lado, a própria publicidade aos aparelhos auditivos reforça esta noção, ao salientar o seu tamanho diminuto e a sua eficiência discreta.

O esforço de esconder a surdez é também o maior obstáculo à procura de reabilitação e de recursos que possibilitem a diminuição das suas consequências negativas. Segundo Noble (1996), a maior parte das pessoas só procura ajuda quando a surdez se torna severa e, mesmo assim, apenas cerca de 20 a 25% das pessoas o fazem.

Para a autora outras evidências desta ocultação da surdez são o facto de os deficientes auditivos não aderirem muito a associações de surdos, não reivindicarem legendagem de TV em locais públicos nem sistemas de apoio à escuta.

2.Consequências na saúde emocional:

Kerr e Cowie (1997, Belfast):, num estudo sobre o impacto da deficiência auditiva na vida de 87 pessoas em idade activa, concluíram que este tem implicações marcantes na qualidade de vida e depressão, provocadas pelos seguintes factores: ausência de comunicação ou grandes dificuldades em comunicar, acompanhadas de grande angústia, limitações na vida habitual, sentimentos de perda e tristeza. Segundo os autores, estes factores são mais determinantes no impacto da surdez que o grau desta, e devem ser tidos em conta na reabilitação.

Outros estudos apontam para a existência de perturbações psicológicas e depressão associadas à perda auditiva, e um maior isolamento quando esta ocorre em pessoas mais idosas.

3.Consequências na saúde física:

O cansaço é a consequência física mais comum e deve-se ao facto de a comunicação exigir um grande esforço: é preciso ouvir, estar muito concentrado, procurar pistas para descodificar o sentido das frases, formular hipóteses…

A ocorrência de acidentes devido ao facto de não se ouvir determinadas situações de perigo ou o aviso relativo a elas, bem como o suicídio devido à depressão são outras consequências.

O stress causado pelas interacções verbais com os outros provoca efeitos psicofísicos que aumentam o risco de doenças, por exemplo, cardíacas.

4.Consequências nas relações e na vida familiar:

A existência de apoio por parte dos familiares e amigos é muito importante na adaptação à perda, mas essas relações ficam sob forte tensão. Muitas vezes o cônjuge torna-se o único intermediário com o meio ambiente, as crianças passam a falar só com ele/ela, há o risco de isolamento em festas familiares e encontros sociais, os convites de amigos para actividades que impliquem uma boa audição diminuem.

Hetu, Jones e Getty (1993) estudaram casais em que um dos elementos sofreu uma perda de audição, verificando uma quebra a nível da comunicação que se traduzia pela redução do número diário de interacções sobre assuntos do dia-a-dia ou temas mais íntimos, a redução das conversas ao essencial, discussões devido à ausência de resposta por parte do surdo, ou por esta não ser apropriada ou ainda pelo pedido frequente de repetição da pergunta.

 5.Consequências a nível profissional:

A perda auditiva, ainda que moderada, pode ter e tem efectivamente um grande impacto a nível profissional.

Stika (1997, EUA) estudou 107 pessoas com deficiência auditiva, observando o seguinte:

  • muitos receavam revelar a deficiência, com medo de serem despedidos, de serem estigmatizados negativamente ou não poderem progredir profissionalmente;
  • mesmo quando era dada a conhecer a deficiência, os empregadores não tomavam medidas para facilitar a comunicação;
  • muitos trabalhavam mais que os colegas, com receio de que estes os considerassem incompetentes, o que lhes provocava grande stress e um sentimento de inferioridade;
  • outros permaneciam em empregos que não os satisfaziam com medo de não encontrarem outro ou para evitar o stress da procura de um novo emprego e situações desagradáveis daí decorrentes (entrevistas, adaptação a novos colegas de trabalho)
  • outros ainda abandonaram o emprego ou reformaram-se por causa da deficiência e do stress psicológico que sentiam no trabalho.

Hogan (1998, Austrália) afirma que adultos com surdez adquirida, sobretudo aqueles em que o grau de surdez é maior, estão em desvantagem no acesso à educação e ao emprego e muitos dos que estão empregados não progridem como os colegas. É muito importante para a manutenção do emprego o acesso a cuidados médicos e à reabilitação.

 Por último, a autora salienta algumas medidas a tomar pelas associações que trabalham no âmbito da surdez, decorrentes das conclusões apresentadas:

  • Promover o acesso de pessoas com poucos recursos económicos a próteses auditivas e implantes cocleares, alargando o número de pessoas abrangidas pelo Plano Federal.
  • Assegurar não só a reabilitação a nível tecnológico, mas também o apoio psicológico, dado o impacto negativo da perda de audição na saúde física e nas interacções pessoais.
  • Promover campanhas de informação e educação sobre a surdez e a perda auditiva, tentando reduzir a discriminação e a estigmatização, e apelando à colaboração de pessoas proeminentes da sociedade que se adaptaram bem à perda auditiva.
  • Propor e elaborar legislação específica relativa à deficiência auditiva e às normas de construção de edifícios públicos (meios de amplificação sonora e outros).
  • Rever o papel e as actividades das associações no âmbito da surdez, de forma a torná-las mais apelativas e mais úteis para os deficientes auditivos, dado que a maioria não adere a elas (Hetu, 1996, defendeu a importância dos grupos de auto-ajuda na adopção de uma identidade “normal” e na redução da estigmatização).

~ por imisal - PORTUGAL em 13/05/2009.

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